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sábado, 27 de março de 2010

Filmes 2010 – Take 1

Quem não me conhece, ao ler o meu blog até o presente momento, verá que adoro viajar, mas, curiosamente, não têm noção de outro vício meu, do qual não consigo me abster. Curiosamente, porque até mesmo eu me pergunto o motivo de tanta demora até este primeiro post. Minha droga é o cinema!
Nada como, em um momento de stress, ou por pura diversão, injetar um pouco (ou muito, dependendo do “entorpecente”) de emoção, terror, suspense, diversão, romance; e ingerir pequenas substâncias brancas (leia-se pipoca) com líquidos corrosivos (não chega a ser soda cáustica, é a Coca-cola mesmo). E ficar “doidão”!
Algumas vezes, a “viagem” é tão grande, que rimos de qualquer coisa, até mesmo da Paris Hilton morrendo na Casa de Cera (aquilo era para rir, estou certo?!). Em outras horas, baixa o espírito de um gênio e filosofamos sobre coisas profundas. Podemos acabar desidratados de tanto chorar. Ou, dependendo do espírito, queremos mesmo é ver “o bicho pegar” e sangue para todo lado. “Jigsaw wanna play a game”.

Uma das minhas resoluções para 2010 é ver, no mínimo, 150 filmes – o que dá três filmes por semana, durante todo o ano. Parece fácil, mas não é. Até agora estou cumprindo. No próximo post, você confere os 11 filmes (não consegui retirar um para formar o Top 10) que vi até agora e que mexeram comigo de alguma forma.

*Os filmes que cito, eu ASSISTI em 2010, mas eles não foram lançados, necessariamente, neste presente ano.

1º - Inglourious Basterds (Bastardos Inglórios) (2009)
Filme de Quentin Tarantino.
Lançado no Brasil em outubro de 2009.
Concorreu a 8 prêmios Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Fotografia e Melhor Roteiro Original.
Christoph Waltz ganhou vários prêmios em diversos festivais pelo mundo, incluindo o Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, pelo papel do Standartenführer (Coronel) Hans Lada, conhecido como “O Caçador de Judeus”.
O primeiro filme que vi do Tarantino – Sim! Eu não vi AINDA Pulp Fiction. Somente vi O Albergue 2, que é um dos roteiros dele – foi o melhor longa nestes três primeiros meses do ano. (Vamos ver até dezembro.) É um filme genial, que conta uma nova versão da história de Hitler, na qual os judeus (Bastardos Inglórios) são os perseguidores dos nazistas, na França. A fotografia é belíssima. Podemos perceber isso principalmente nas primeiras cenas do filme, em que Hans Lada visita a casa de um camponês, atrás de uma família judia desaparecida. A tensão é palpável. Shosanna (Mélanie Laurent) é uma mártir. E quem duvida do italiano fluente do Tenente Aldo Raine (Brad Pitt) – “Buongiorno”? Definitivamente merecia ganhar o Oscar de Melhor Filme!
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2º - A Single Man (Direito de Amar) (2009)
Filme de Tom Ford.
Lançado no Brasil em março de 2010.
Colin Firth concorreu ao Oscar de Melhor Ator.
A pergunta, que eu e alguns amigos nos fizemos ao final da exibição, foi: como esse filme somente concorreu a uma única categoria no Oscar? E, com todo respeito ao merecido Jeff Bridges, ainda perdeu? Pergunto-me se não foi pelo fato do diretor ser um renomado estilista e estreante na 7ª Arte. A verdade é que o filme é lindíssimo. E, para alguns críticos, este é justamente o problema da película – ser bonita demais, ao ponto de tirar a atenção da história. Contudo, se ao menos a beleza é incontestável, como não concorreu ao Oscar de Melhor Fotografia? É melhor eu parar com minhas indignações por aqui. Ao meu ver, a história não ficou em segundo plano, e o Colin, no papel de George, fez um trabalho de extrema sutileza e profundidade. Muitos dizem que ele nunca mais chegará a esse patamar. Julianne Moore também está estonteante no filme (e também ignorada pela Academia). O novo queridinho Nicholas Hoult, no papel de estudante universitário, é uma promessa. Impossível não se comover com a história desse amor – quem julga por ser gay? –, com a dor do protagonista e não pensar sobre perda, sobre morte. Destaco o jogo de iluminação que existe no filme, o que é bastante interessante e inovador. Tudo realmente é absolutamente lindo. Somente não foi “lindo” o Oscar não ter reconhecido isso.
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3º - Up in the Air (Amor sem Escalas) (2009)
Filme de Jason Reitman.
Lançado no Brasil em janeiro de 2010.
Concorreu a 6 Oscars, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Roteiro Adaptado e teve duas atrizes entre as concorrentes a Melhor Atriz Coadjuvante.
É um filme controverso. Não em relação à sua qualidade técnica – alguém duvida? Mas quanto à temática mesmo. Muita gente não gostou do filme. Eu já achei genial. Mas concordo que foi um pouquinho longo demais, porém não fiquei cansado. O problema em relação à história é que não é algo aparentemente interessante (o trabalho de Ryan Bingham – George Clooney – é demitir as pessoas) e, em sua maior parte, não é otimista. Contudo, é justamente isto que torna o filme tão único e especial. Vera Farmiga, como Alex Goran, e Anna Kendrick, como Natalie Keener, foram super competentes. Uma amiga nunca viu tamanha comoção no cinema como quando um segredo envolvendo a primeira é revelado. E o choro da segunda é memorável. O filme discute sobre relacionamento e conexões. Nem preciso dizer que a Academia vacilou em não dar, ao menos, o Oscar de Melhor Roteiro. Va-ci-lou!

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4º - (500) Days of Summer ((500) Dias com Ela) (2009)
Filme de Marc Webb.
Lançado no Brasil em novembro de 2009.
Pode até chegar a ser considerada apenas mais uma comédia romântica, porém ela é mais do que isso – ao menos, está acima da média. O filme começa alertando que é uma história em que um garoto (Tom Hansen – Joseph Gordon-Levitt) conhece uma garota (Summer Finn – Zooey Deschanel), mas não é uma história de amor. Um dos questionamentos principais é: as situações determinantes nas nossas vidas acontecem por destino ou coincidência? Apesar de não concordar muito com a conclusão final, mexeu muito comigo. Com bons atores, boa trilha sonora, boa montagem e bom roteiro, claro, o filme surpreende e encanta. O importante é saber que, destino ou coincidência, as situações continuam a mudar, como as estações.

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5º - An Education (Educação) (2009)
Filme de Lone Scherfig.
Lançado no Brasil em fevereiro de 2010.
Concorreu a 3 Oscars – Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Atriz.
Garota se apaixona por cara bem mais velho. Envolvem-se e ela larga tudo por ele. Parece um roteiro batido, mas a perfeição das atuações, com destaque para a protagonista Carey Mulligan, como Jenni – e todos os outros coadjuvantes não ficam para trás –, detalhes do roteiro e boa direção fazem do longa um filme memorável. Interesses e sonhos estão em jogo, e todo mundo quer dar um pitaco no rumo da vida da Jenni. O playboy mais velho, David (Peter Sarsgaard), é peça-chave para as decisões da jovem estudante.

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6º - The Hurt Locker (Guerra ao Terror) (2009)
Filme de Kathryn Bigelow.
Lançado no Brasil em fevereiro de 2010.
Concorreu a 9 Oscars e venceu 6, dentre eles Melhor Filme, Roteiro Original e Montagem.
Bigelow foi a primeira mulher a ganhar o prêmio de Melhor Diretora.
Sem dúvidas o filme é muito bom e perfeito na parte técnica. Contudo, para mim, não merecia ganhar o prêmio de Melhor Filme do ano. O frisson todo aconteceu porque a diretora era concorrente do seu ex-marido, James Cameron, diretor de Avatar. Jeremy Renner, na pele do Sargendo William James, fez um ótimo trabalho. O filme, que conta a história dos soldados especializados em desarmar bombas, é tenso do começo ao fim. A qualquer momento a bomba pode explidir. Qualquer um pode ser terrorista. Mesmo tendo ótimas cenas, ainda não consegui engolir esse prêmio.

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7º - Avatar (2009)
Filme de James Cameron.
Lançado no Brasil em dezembro de 2009.
Concorreu a 9 filmes e venceu 3 – Direção de Arte, Fotografia e Efeitos Visuais.
Dizer que é a maior bilheteria da história do cinema é pouco? 12 anos depois de estreiar Titanic, o penúltimo filme do diretor e, até então, a maior bilheteria, Cameron voltou com essa perfeição em terceira dimensão. O visual do filme é emudecedor. As imagens de ação em 3D são de tirar o fôlego. E toda a parte criativa e de arte do filme é irrepreensível. Contudo, pensando apenas na parte “física”, a parte “intelectual” ficou esquecida, refletindo em um roteiro batido – exatamente o que tirou o posto de Melhor Filme. A história pode até ser moderninha (exploradores capitalistas que destroem a natureza sem dó), mas todo mundo também já viu o colonizador se apaixonar pela nativa. Nós é que dizemos: Tenha dó!

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8º - Sherlock Holmes (2009)
Filme de Guy Ritchie.
Lançado no Brasil em janeiro de 2010.
Concorreu a 2 Oscars.
Robert Downey Jr. (Sherlock) e Jude Law (Dr. Watson) não poderiam ter formado melhor dupla de investigadores. A direção de arte do filme é muito boa e mereceu ter recebido a indicação da Academia, assim como a trilha sonora. Guy conseguiu, por meio de inúmeros ensaios, fazer cenas milimetricamente compassadas. Inúmeros momentos engraçados são garantidos. E como uma cena (imagem) vale mais do que mil palavras: a cena da explosão dos barris não poderia ter ficado mais perfeita. Nada melhor para os olhos!

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9º - The Blinde Side (Um Sonho Possível) (2009)
Filme de John Lee Hancock.
Lançado no Brasil em março de 2010.
Concorreu ao Oscar de Melhor Filme.
Sandra Bullock, desbancando Meryl Streep, ganhou o prêmio de Melhor Atriz.
É bem capaz de você já chorar no trailer. Entretando, o filme não é tão melancólico quanto parece. Também não é tão fantástico quanto parece. O grande trunfo está na interpretação da Sandra Bullock, e prova que uma boa atriz interpreta até mesmo papéis “simples”, sem personalidade bem marcada. Claro que Leigh Anne Tuohy na vida real não é qualquer mulher – a história dela é uma lição e nos mostra o poder da família. Eis o encanto da película: saber que tudo aquilo aconteceu de verdade. Um filme em que o preconceito não tem vez. Temos muito o que aprender com esses exemplos de vida.

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10º - Prayers for Bobby (Orações Para Bobby) (2009)
Filme de Russell Mulcahy.
Lançado na TV estadunidense em janeiro de 2009.
Sigourney Weaver concorreu a 4 premiações pelo seu papel, incluindo Melhor Atriz em Filme para TV, no Globo de Ouro.
Este é um filme para a televisão que fala sobre homossexualidade, igreja, crenças e família. Baseado em fatos reais, talvez nem seja interessante ler ou ver o trailer – a não ser que não se importe em conhecer o desfecho da história. Infelizmente, não é possível encontrar o filme no Brasil, mas dá para fazer o download pela internet. A história aborda basicamente o relacionamento entre Bobby Griffith (Ryan Kelley) e sua mãe Mary Griffith (Sigourney Weaver). Em muitos momentos chocantes, o filme emociona profundamente – impossível não chorar (muito!). Faz-nos refletir sobre o fanatismo religioso, respeito à diversidade e amor, acima de tudo.

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11º - Shutter Island (Ilha do Medo) (2010)
Filme de Martin Scorsese.
Lançado no Brasil em março de 2010.
Ok. Não se trata exatamente de uma história original e o roteiro tem, sim, algumas falhas. Talvez pela minha falta de expectativa, acabei me surpreendendo bastante. Leonardo DiCaprio interpreta o policial federal Teddy Daniels que vai para a citada ilha investigar o (suposto) desaparecimento de uma paciente louca. Todo mundo pode não ter se surpeendido com a primeira virada da história, mas é justamente o desfecho (muito bom!) que me fez acrescentar este filme na minha lista. Ele conseguiu fazer com que eu ficasse na dúvida em relação ao personagem e, quando tudo foi revelado, realmente eu não esperava. A cena em que o Teddy encontra a esposa e os filhos em casa é bem forte. E a última fala do filme é estarrecedora. Sobre o Martin Scorsese? Ele nem precisa de comentários. Sempre é ótimo no que faz!

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domingo, 3 de maio de 2009

Conformismo Descobrimento Liberdade

O filme que abriu o X Festival Internacional de Cinema de Brasília, em exibição única, não poderia ter sido melhor: Vicky Cristina Barcelona, que é o último interessante trabalho do diretor Woody Allen (Ponto Final – Match Point), que dispensa apresentações. O longa-metragem que começou parecendo mais um filme das irmãs Olsen (duas amigas em algum lugar significante no mundo vivendo aventuras amorosas temporárias), acima de tudo, fala de relacionamentos, diferenças, maneiras de ser e encarar o mundo, com ambientação na estonteante Barcelona – Espanha, com suas ruelas e monumentos que dão todo o charme e determinam a atmosfera do filme, bem turístico.
Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (a sexy Scarlett Johansson) são amigas desde a infância e, como o próprio narrador afirma, são parecidas em quase tudo, menos no amor. A primeira está fazendo mestrado em Identidade Catalã, por isso a visita ao país; gosta do certo; é realista, racionalizadora; e quer uma vida estável, ao lado do seu futuro marido. Cristina, ao contrário, gosta do diferente; é contra o status quo, atitude interpretada apenas como “aparecimento” dela; está desocupada; e é uma artista tentando se encontrar – “tenho o que expressar, mas não tenho talento para fazê-lo”.
Em uma exposição, Cristina se interessa por um tal pintor chamado Juan Antonio (Javier Bardem, em mais um papel fora do comum), homem que, segundo informações, terminou o relacionamento recentemente de uma forma muito escandalosa - um tentando matar o outro. Mais tarde, as duas garotas o conhecem ao serem abordadas de uma forma bem direta. Foram convidadas para viajar à Oviedo em uma hora, e irem pra cama com ele. As duas. Curto e grosso. Vicky fica chocada, mas Cristina se interessa ainda mais, por não ser um homem “fabricado”, produzido em série como a maioria. Acabam indo. Viajar apenas.
Na primeira noite Juan refaz a proposta da noite à três, e Cristina, que cada vez mais se enlouquecia pelo rapaz, topa, mas na hora H algo que havia comido não fez muito bem. Então, termina por ter que ficar alguns dias de repouso. A oportunidade perfeita para Vicky conhecer um pouco mais Juan – um homem realmente direto, sem papas na língua, o que por vezes o faz dizer algo indevido, porém sincero com os outros e, principalmente, consigo mesmo, o que lhe confere um charme especial.
Mesmo noiva e faltando pouco tempo para se casar, Vicky passa uma noite com Juan, depois se afastando. Assim que melhora, Cristina passa a morar com ele. Ela começa a se encontrar na fotografia e na poesia. Mas como o passado mal-resolvido acaba por voltar, María Elena (a magnífica Penélope Cruz), ex-mulher de Juan, tenta se matar e tem de ficar com eles por um tempo. “Uns dias?”, pergunta Cristina. “Uns meses”, responde o pintor.
Penélope, numa interpretação de total entrega, encarna uma mulher passional, temperamental, bipolar, forte (por lutar pelo o que quer) e fraca (pela tentativa de suicídio), que por vezes beira a loucura. O relacionamento com Juan era de paixão e brigas (geralmente pelo bem do outro), mas algum ingrediente faltava para equilibrar as coisas. No amor não se tem tudo, nada é perfeito. A última peça que faltava era justamente Cristina. No começo, María não confiava nela, mas depois até ajudou-a a se descobrir.
O filme passa a tratar, de uma forma leve, descontraída e sem preconceitos, uma nova configuração social, um novo tipo de relacionamento, que envolve questões sexuais, sem descambar para a nudez e sexo explícito, e vai contra a religiosidade – um triângulo amoroso bissexual. Contudo, como declara Cristina: “Não tem que ficar rotulando sempre. Eu sou eu!”.
Essa revolta contra a sociedade e suas normas antiquadas se expressa também na figura do pai de Juan, que faz belíssimas poesias, mas por raiva, talvez, as nega ao público. Se as pessoas não merecem ou não sabem dar valor, apenas o senhor, desbocado como o filho, saberá responder.
Com um humor simples, irônico, inteligente e sarcástico, típico de Woody, o filme é completamente catalão, marcante em todos os 93 minutos de exibição. Cada cena, planos (belos, suaves e não-estáveis) e ações acompanhavam a trilha sonora, exortando: “Barcelona, Barcelona!”.
Tudo parecia tranqüilo até Cristina sofrer um ataque de “insatisfação crônica” e contar que não podia mais viver esse ménage à trois. María enlouquece, dispara palavrões em espanhol e presenteia os espectadores com uma das melhores cenas do filme. Juan, mais racional, pede: “Lembremo-nos dos bons momentos passados juntos”.
Pela mesma época, Vicky descobre que Judy, quem a hospedou, não ama realmente seu marido, casou-se sem sentimentos, porque teve medo de correr atrás do seu verdadeiro amor, por ser uma atitude insegura. Preferiu trocar o incerto pelo certo, e foi um erro. Contudo, estava disposta a não deixar Vicky cair na mesma armadilha. Não passava de uma tentativa de “reescrever sua própria história”.
Em um final, não menos interessante, Vicky não conseguiu se libertar, porque tinha absorvido, através da educação, o espírito conservador e a moral da sociedade. (Don) Juan é fadado a ser um conquistador e a brigar sempre com María, que afirma que “só um amor não realizado pode ser romântico”. Cristina continuou sua busca, e o mundo a girar...
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Assita ao trailer:

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Caminho Rumo à Natureza Selvagem

Havia visto esse filme quando estreiou no cinema, mas por causa de um trabalho da universidade resolvi vê-lo novamente e fazer a crítica que segue abaixo. Espero que gostem!
“Não que eu ame menos o homem, mas amo mais a natureza”. Esse trecho que inicia o filme faz parte de um dos poemas do britânico Lord Byron, e indica o que se verá nas próximas mais de duas horas de exibição: uma torrente seqüência de paisagens exuberantes, que enchem os olhos do espectador com os pequenos e belos detalhes da natureza, ainda selvagem ao homem metropolitano.
Não menosprezando outros aspectos do filme, mas as imagens são o que mais impressiona, com planos que sabem valorizar e explorar as magníficas locações no Alasca e parte oeste dos Estados Unidos. Após uma rápida ação perturbadora dos pais do protagonista Christopher McCandless, é a imensidão branca que preenche a tela, a natureza passa de cenário à personagem ao longo do filme, e é ela que por vezes está em destaque. Em muitas outras cenas, mesmo com o foco nos personagens ou ações, um pedacinho do paraíso aparece em primeiro plano, como moldura de uma história dramática e instigante.
Alexander Supertramp (Superandarilho), conhecido na civilização como Christopher Johnson McCandless, foi um rapaz que teve tudo para ser bem sucedido na vida – tinha uma família bem abastada, era graduado –, contudo, por causa do seu idealismo, incentivado pela leitura de escritores como Jack London, Leo Tolstoi e Henry Thoreau, resolveu abandonar a “doente sociedade”, cheia de pessoas materialistas vazias que vivem uma vida de mentira, para ir em busca de um encontro consigo mesmo, livre de todas as amarras capitalistas – quebrou cartões de crédito, queimou dinheiro, destruiu documentos e doou seu dinheiro à caridade. Ele não queria nada de sobra, ele queria o suficiente. "Coisas, coisas, coisas, coisas". Não haviam mais coisas para este andarilho extremista, “um viajante esteta cujo lar é a estrada”.
Finalmente liberto, ele segue seu caminho rumo à natureza selvagem – o Alasca. Por dois anos esteve sem telefone, carro, piscina e um itinerário fixo, vivendo a custa de bicos e doações, locomovendo-se por meio de caronas ou até descendo ilegalmente as turbulentas corredeiras de um rio em um caiaque.
O companheirismo e a ajuda mútua, independente de situação financeira ou social, também é uma lição apreendida no longa. Todos têm ensinamentos, algo a transmitir, marcas a deixar em quem pelo caminho encontrar. Diferente do relacionamento com a própria família, que sem dúvidas foi uma das causas de tal rebelião contra a sociedade americana, com exceção da fiel e compreensiva irmã, Chris ficou todo o tempo sem manter contato algum, e criou laços significativos com pessoas que o ajudaram no caminho. Ele deixou seus pais para ser "filho" ou "neto" de outros, além de um rápido envolvimento amoroso.
Estava tão selvagem, que os encontros com a civilização eram contrastantes. Chegou a ser praticamente mendigo, procurar abrigo em albergues e não seguir “estúpidas regras” sociais. Tornou-se periférico. Era tão contrário à sociedade esbanjadora que não conseguia se adaptar. Certo momento, na cidade grande, se imaginou caso não tivesse optado pelo vida que estava levando, e não conseguiu se suportar.
Depois de cem dias totalmente selvagens no Alasca, ele havia sobrevivido. Porém não da forma como gostaria. Chris se encontrava no limite entre a fé e o desespero. Uma série de falhas o havia levado ao pior estado imaginável por ele até então: sozinho à beira da morte.
Para começar, depois de ter encontrado o “ônibus mágico” e ter se estabelecido em uma rotina, caçando para sobreviver e criando sua própria “civilização”, ele havia ignorado que a natureza está em constante mudança e que as estações trazem consigo novas adaptações. Quando enfim decide voltar à sua vida urbana, o lânguido riacho pelo qual havia cruzado no inverno, na primavera estava intransponível, tornara-se um caudaloso rio. E para completar, na insensatez do surto pela falta de alimento, por engano, acabou comendo uma frutinha venenosa que causa inanição. A morte batia à porta do ônibus-abrigo.
Quem leu o livro biográfico de 1996, Into The Wild (nome original do filme), escrito por Jon Krakauer (autor de outros livros selvagens, como No Ar Rarefeito), sabe que fim dramático McCandless teve, e o filme soube mostrá-lo com sensibilidade e força. “Eu fui literalmente aprisionado pela natureza”, segundo suas palavras. Depois de tanto fugir das pessoas em busca da solidão, arrepende-se, e lamenta o fato de não ter tido com quem dividir aqueles momentos.
O filme, narrado pela personagem que representa a irmã, Carine, é bem editado, não é à toa que concorreu ao Oscar de Melhor Edição (Jay Cassidy). Com momentos “diário de McCandless”, interessantes por sinal, o filme não agrada muito pela capitulação das fases pelas quais o protagonista passa, desde seu "nascimento" até se tornar sábio.
A narrativa, diferente da maioria dos filmes hollywoodianos, é mais lenta, o que pode aparentar monotonia aos dispersos, quando na verdade caminha pela sutileza. Contudo, o fato de não explorar as grandes ações é errôneo, já que desperdiça uma grande cena, como a da inundação de uma área onde Chris iria pernoitar, o que causa a perda do seu carro.
O maior pecado, no entanto, é o descambo para a nudez, totalmente desnecessária para o roteiro, como a maioria dos filmes que não podem perder a oportunidade de mostrar uns seios ou até mesmo a genitália masculina, como nesse caso também, para chamar mais a atenção do público. Se servir de contrapartida, essas cenas foram rápidas e não de todo vulgares.
A trilha sonora de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam em seu primeiro trabalho solo, é excelente e tem uma ligação umbilical com o filme. No Globo de Ouro, inclusive, o filme concorreu à Melhor Trilha Sonora e ganhou como Melhor Canção por "Guaranteed".
As referências são muito significativas e quem vê o filme sai com vontade de ler todos os autores citados. As interpretações atingem a essência. Hal Holbrook, um simpático senhor que aparece no caminho de Chris, concorreu como Melhor Ator Coadjuvante no Oscar.
Sean Penn, que dirigiu, produziu e fez o roteiro do filme, depois de uma espera de dez anos, conseguiu fazer um trabalho muito bom e impactante. Emile Hirsch, que teve de perder 18 quilos para encarnar o personagem, conseguiu transmitir que existem coisas mais importantes pelas quais se viver do que o dinheiro, muitas vezes entronizado como determinador do sucesso ou fracasso.
É impossível traduzir em palavras o motivo de tal irracional consciente atitude. Ninguém que o ouvisse entenderia, e o julgamento seria inevitável. Todavia, McCandless cria uma cumplicidade com o público, que não precisa ser explicada, basta ver através de seu olhar, tantas vezes valorizado de forma inteligente e subjetiva. É como se o público soubesse o que se passa naquela mente.
O protagonista é realmente alguém inquieto interiormente. Nas cenas em que aparece, a imagem é sempre movimentada, em contraste com as cenas onde a paisagem impera e o panorama estático traduz a tranqüila e astuciosa natureza.
Tudo tem seu limite. McCandless foi aconselhado que era um erro ir fundo demais, mas o instinto falou mais alto. Ele buscou humanidade na natureza selvagem. A linha que divide coragem e loucura, no caso dele, foi muito tênue, e ele se valeu de um pouco dos dois para chegar onde chegou. Às vezes, meio imprudente, ou totalmente, mas de uma bravura, grandeza e espírito magníficos. Ao menos uma vez na vida, todo ser humano devia se permitir usufruir dessa liberdade mágica, na natureza selvagem. "Aonde você vai? Já disse. A lugar nenhum!".

"E não se esqueça, se quer algo na vida, vá atrás e pegue!



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